
DEPOIMENTO
Impossível começar a dizer qualquer coisa sobre estar fazendo parte deste grupo sem falar em Deo, nosso querido sacristão Francelino.
Participei, junto com ele, desde o início deste desafio. À distância, ouvia as histórias, dividia as agonias, torcia, dava força e, mais tarde, quando eu já estava em Salvador, passávamos o texto, ajudando-o a memorizá-lo e, sobretudo, me divertindo com as mulheres malucas de Muzenza.
Já na véspera da estréia, eu, com aquele frio na barriga e, ao mesmo tempo inchada de orgulho do meu amigo, que havia conseguido chegar até lá, conheço Walter, o tão falado professor argentino. Foi um presente de Yemanjá. A mesma que me trouxe Deo, trouxe Walter, dez anos depois. Odoyá! Em plena agitação do 2 de fevereiro, estávamos nós, no Rio Vermelho, conversando, nos descobrindo, felizes por aquele encontro tão cheio de energia boa.
No dia seguinte, logo pela manhã, um telefonema: era Deo, dizendo que eles estavam precisando de uma Nossa Senhora. Sim! Era eu! Meu Deus do céu... Sempre quis fazer teatro. Sabia, de uma forma ou de outra, que isso aconteceria aqui, na Bahia... Mas assim? Tão de sopetão? Três meses vivendo na cidade e, de repente, em cima de um tablado? E, acima de tudo, compartilhando esse momento tão especial com meu amigo? Sim, era isso mesmo... Só tive tempo de agradecer e, mais uma vez, ter a certeza que essa nossa vida é mesmo muito boa!
Me arrumei e saí correndo para o teatro.
Lá, muito bem recebida por todos, fui me posicionando no meu cantinho cenário-altar de santa que tudo vê.
Foi um desafio muito grande e uma satisfação maior ainda ao final do espetáculo. Ouvir as risadas do público, as palmas, agradecer no final... vale qualquer esforço físico e emocional.
Assim, aos pouquinhos e com a calma e quietude típicas de Nossa Senhora, fui me sentindo cada vez mais parte dessa turma de atores-amigos.
Ficar parada qual estátua e saber a hora certa de intervir foi, e está sendo, uma descoberta para mim. Sentir-me cada vez mais dentro do salão da igreja, podendo abençoar aquelas pobres almas, compartilhar a tristeza do padre e acalmá-lo, e as perturbações e inquietações de Francelino, e viver, de fato a transformação do personagem que, diante de tudo o que vê, vai deixando seus desejos e instintos de mulher manifestarem-se, é um prazer. É pura diversão! Uma sensação lúdica, mesmo.
Sinto que isso é só o começo. Se a sementinha de atriz germinará em mim, não sei. Mas que essa oportunidade que a vida me deu ainda vai durar e gerar outros aprendizados, isso eu tenho certeza.
Obrigada Walter, pelo carinho sempre e, sobretudo, pela confiança.
Obrigada, meninas e meninos, pela atenção e carinho também. Tenho muito a aprender com todos vocês.
Temos que acreditar em tudo o que fazemos sempre.
O mundo é de quem se atreve!
Maria Beatriz Dallari (Nossa Senhora)
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